11.1.06

Milagreiro (inspiração musical)

Djavan/Cássia Eller.
Agora vamos ter os girassóis
do fim do ano
e o calor vem desumano
tudo irá se expandir
crescer com as águas
quiçá, amores nos corações
e um santeiro,
milagreiro
prevê a dor
de terceiros
e diz que a vida
é feita de ilusão
aquela que um dia o fez sonhar
se foi com o outro
no dia em que os dois
se casariam por amor
ele aluou
hoje o seu pesar
cintila nos varais
usou as sete vidas
e não foi feliz jamais
toda a imensidão
passou pela vida
e foi cair na solidão
mais um santo para esculpir é o que lhe vale
pra evitar que o rancor suas ervas se espalhe.


Prefiro não permitir que o rancor domine meus dias inteiros. Apenas um pequeno espaço de um deles, de cada vez. Quem não tem nada pra prantear, pra desopilar? Eu estou sempre sorrindo e as vezes chorando. Choro de alegria, de saudade, choro no cinema, por amor, por loucura, por opção. Mas nunca irei permitir que o ódio, a mágoa domine minha existência. Ela já é tão curta, entao porque sofrer por opção?
As coisas começam e terminam, numa cadeia cíclica e infindável. Mas geralmente nos programamos para lembrar as coisas boas dessas coisas que nos acontecem nessa coisa chamada vida. Tanta coisa. Será que fica feio ter tanta coisa para escrever?
Há quem não goste de amar e brada aos sete ventos que amar é a pior coisa que pode acontecer a alguém. Eu nunca vou conseguir acreditar nisso. Amar é ser sincero. Amar é ser leal, antes de ser fiel. Do que adianta alguém extremamente fiel ao seu lado se essa pessoa não for leal? Com certeza essa é uma péssima combinação.
Agora, vou parar de te olhar para mim e vou olhar ao longe, lá onde os morros são verdes e onde posso encontrar alento.
Cantarolando Ana Carolina, eu quero olhar as luzes que teus olhos não me tem deixado ver.
Quero que tudo se resolva e que todos os homens de boa vontade sejam felizes e tenham cada vez mas fé em si, no amor e na coletividade. Agora eu vou viver, com licença.

7.1.06

Isso é saudade...

Em alguma outra vida, devemos ter feito algo de muito grave para sentirmos tanta saudade.
Trancar o dedo numa porta dói.
Bater com o queixo no chão dói.
Torcer o tornozelo dói.
Um tapa, um soco, um pontapé, doem.
Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é a saudade.
Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que morreu, do amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa. Doem essas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a de quem ama.
Saudade da pele, do cheiro, dos beijos.
Saudade da presença, e até da ausência consentida.
Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá.
Você podia ir para o dentista e ele para a Faculdade, mas sabiam-se onde.
Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele sem vê-lo, mas sabiam-se amanhã.
Contudo, quando o amor de um acaba, ou torna-se menor, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.
Saudade é basicamente não saber.
Não saber se ele continua fungando num ambiente mais frio.
Não saber se ele continua sem fazer a barba por causa daquela alergia.
Não saber se ele ainda usa aquela calça.
Não saber se ele foi à consulta com o dermatologista como prometeu.
Não saber se ele tem comido bem por causa daquela mania de estar sempre ocupado, se ele tem assistido às aulas de inglês, se aprendeu a entrar na Internet e encontrar a página do Diário Oficial, se ele aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua preferindo Malzebier, se ele continua preferindo suco, se ele continua sorrindo com aqueles olhinhos apertados, se ele continua cantando tão bem, se continua detestando o McDonald´s, se continua amando, se continua a chorar até nas comédias.
Saudades é não saber mesmo!
Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos.
Não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento.
Não saber como frear as lágrimas diante de uma música.
Não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
Saudade é não querer saber se ele está com outro, e ao mesmo tempo querer.
É não saber se está feliz, e ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos por isso.
É não querer saber se ele está mais magro, se está mais belo.
Saudade é nunca mais saber de quem se ama, e ainda assim, doer.

3.1.06

Fragmento de Clarice

Quero pintar uma rosa.
Rosa é a flor feminina que se dá toda e tanto que para ela só resta a alegria de se ter dado. Seu perfume é mistério doido. Quando profundamente aspirada toca no fundo íntimo do coração e deixa o interior do corpo inteiro perfumado. O modo de ela se abrir em mulher é belíssimo. As pétalas têm gosto bom na boca - é só experimentar. Mas a rosa não é it. É ela. As encarnadas são de grande sencualidade. As brancas são a paz do Deus. É muito raro encontrar na casa de flores rosas brancas. As amarelas são de um alarme alegre. As cor-de-rosa são em geral mais carnudas e têm a cor por excelência. As alaranjadas são produto de enxerto e são sexualmente atraentes.
Preste atenção e é um favor: estou convidando você para mudar-se para reino novo.
Já o cravo tem uma agressividade que vem de certa irritação. São ásperas e arrebitadas as pontas de suas pétalas. Operfume do cravo é de algum modo mortal. Os cravos vermelhos berram em violenta beleza. Os brancos lembram o pequeno caixão da criança defunta: o cheiro então se torna pungente e a gente desvia a cabeça para o lado com horror. Como transplantar o cravo para a tela ?

LISPECTOR, Clarice - Água Viva