3.1.06

Fragmento de Clarice

Quero pintar uma rosa.
Rosa é a flor feminina que se dá toda e tanto que para ela só resta a alegria de se ter dado. Seu perfume é mistério doido. Quando profundamente aspirada toca no fundo íntimo do coração e deixa o interior do corpo inteiro perfumado. O modo de ela se abrir em mulher é belíssimo. As pétalas têm gosto bom na boca - é só experimentar. Mas a rosa não é it. É ela. As encarnadas são de grande sencualidade. As brancas são a paz do Deus. É muito raro encontrar na casa de flores rosas brancas. As amarelas são de um alarme alegre. As cor-de-rosa são em geral mais carnudas e têm a cor por excelência. As alaranjadas são produto de enxerto e são sexualmente atraentes.
Preste atenção e é um favor: estou convidando você para mudar-se para reino novo.
Já o cravo tem uma agressividade que vem de certa irritação. São ásperas e arrebitadas as pontas de suas pétalas. Operfume do cravo é de algum modo mortal. Os cravos vermelhos berram em violenta beleza. Os brancos lembram o pequeno caixão da criança defunta: o cheiro então se torna pungente e a gente desvia a cabeça para o lado com horror. Como transplantar o cravo para a tela ?

LISPECTOR, Clarice - Água Viva

1 Comentários:

Blogger Gerusa disse...

Rodrigo, chéri, estava eu aqui a transcrever para ti este, exatamente este mesmo fragmento de Clarice, e por alguma feliz coincidência resolvi ler algo teu antes de enviar... E cá estão as palavras todas.
Belas, belas coincidências para nós, a vida inteira e sempre!
Beijo com carinho, da Gerusa.

04 janeiro, 2006 14:24  

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