24.3.06

Utopia? Nao. Realidade.

por Rodrigo Westeuser
(texto enviado para o Jornal Impresso da Universidade UniVar de Aragarças-Go)

Escrever sobre algo tão importante é desafiador, no mínimo. Fico honrado de receber o convite e darei o melhor de mim para não decepcionar àqueles que me lêem.
Falar sobre o socialismo é fácil, parece que se trata de um regime perfeito onde todos possuem as mesmas possibilidades. Porém, não é tão simples assim quanto parece. O socialismo - assim como qualquer outro regime - é perigoso quando mal administrado. Tomemos por exemplo a extinta União Soviética. Uma superpotência que aos poucos foi definhando por conflitos internos, pela sede de independência de seus membros cansados de dar e não receber, assim como o comunismo chinês, o totalitarismo “del General Fidel” entre tantos outros que degringolaram devido a má administração.
Antes de pensarmos em regime, em ismos, deveríamos pensar em sociedade como um todo. É tão mais fácil socializar um povo do que impor algo a essa mesma comunidade.
Por vezes me ponho a pensar porque alguns querem uma mudança nacional e não tentam mudar seu próprio dia-a-dia? Temos tanto a fazer e somos tão acomodados que não creio que o socialismo salve nossa Nação.
Todos os dias nos deparamos com pedintes, com crianças nos sinais e com muitas outras situações revoltantes que a impressão que fica é de que estamos jogados às traças. Será tão difícil mobilizar-se para contribuir com um pouco de afeto? Porque sempre pensamos em ajuda financeira ou material sendo que podemos simplesmente dispensar um minuto do nosso dia dedicando uma palavra a alguém que sofre sozinho?
Isso a que me refiro se chama humanidade, é ser humano, é ser parte de um todo, juntar-se a uma engrenagem bem azeitada que funciona sem maiores problemas. Tenho certeza que todos que lêem esse artigo agora podem contribuir de fato para que tudo aconteça melhor. Todos sabem fazer alguma coisa e podem ensinar. Todos podem dispensar um aperto de mão Todos podem mas não fazem.
Abrindo mais os horizontes, penso em Ernesto Guevara de la Serna, o nosso tão conhecido Che, o mesmo homem que travou guerras em nome da humanidade, aquele que abandonou tudo e todos para cuidar de leprosos e menos abastados. Ele fez o que lhe cabia e agora é tomado como herói. Por que o temos como herói e não seguimos seus bravos passos?
Por fim quero deixar um apelo: seja sutil, seja humano, pense que aquele que está menos provido de saúde, de dinheiro ou de felicidade depende de você para viver. Para tanto, não necessitamos nomear isso de socialismo, humanismo ou voluntarismo. Isso se denomina ser parte ativa da social igualdade, isso denomina-se vontade de mudar o sistema falho e precário que reina altivo sobre nossas cabeças. A vontade de mudar está em cada um e não podemos ficar parados esperando que o próximo tome a iniciativa. Temos que levantar e seguir em frente, preparando um mundo melhor para aqueles que vêm por aí.
E terminando esse texto cito uma frase do mesmo Che: Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura, jamás! Então não perca sua ternura, comece com um pequeno gesto. Aos poucos, quem te cerca ficará tentado a começar também. E assim, talvez o socialismo faça parte do nosso mundo e talvez possamos nos orgulhar de nossos feitos sem que nenhuma denominação seja tomada.

13.3.06

Oceano de Perdição

Tento me libertar das amarras que me prendem ao cais, elas são feitas de cipó forte e não me permitem seguir mais longe. Se soltassem meus braços, ficaria livre para sempre, exceto pelo fato de gostar de estar preso.
As pedras nos bolsos colaboram para meu naufrágio, mas me são tão valiosas que nunca me desfaço delas. Estou falido mas ainda consigo ser feliz com o pouco que me resta.
As batidas descompassadas à porta indicam que o carteiro hoje chegou atrasado. Os cigarros aos poucos vão me abandonando e as pessoas também. Seguem livre pelo oceano que não me é permitido. Salve-se quem puder. E morra de solidão os que amam demais.
A cada novo dia vivo um novo julgamento e engulo aos poucos as pedras dos meus bolsos para que pesem em mim, dentro de mim e não mais nas minhas roupas rotas, rasgadas pelas desavenças dos dias frios.
Mais um adeus, menos um na minha lida. Meros acenos breves que são fugidios e não valem nada, senão para recordar. Acenos que são fotos velhas, retratos em preto e branco, retardos de ilusão. Ilusórias imagens. Alusivas cabaças expostas. Sentidos amorfos. Amortecidos por um éter que se chama pesar.
Pesar...Pesar...Pesar...Medir...
Chorar, sorrir.

8.3.06

Poema breve Canção

Ando nas ruas do centro
Estou lembrando tempos
Enquanto lhe vejo caminhar
Quintana e seus quintanares
Cataventos e jardins nas banheiras
Chaminés
Baforadas gris
Casas de pensão
Janelas abertas
Garimpando pedras e frases
Nasce uma canção
Pequena, singela
Sincera.
O retorno ao café com pão
Maçãs
Palcos da vida, três sinais
A lágrima solitária se foi
E a Lua agora está cheia (por pouco tempo)
Assim é reviver
Rememorar
E renascer.

6.3.06

Carta ao passado

Meu querido,
Com essa carta que escrevo agora, jogo para fora todos os pesares que se encontram guardados no meu peito, na cabeça e no meu saco há vários meses. Julguei ser uma merda essa vida. Ela me arrasta pra lá e pra cá, como se eu fosse um engodo de sofrimento, mas percebi que merda não é. Notei coisas e pessoas que me são muito preciosas e que sempre estiveram ali. Eu estava cego e agora talvez enxergue. Abre essa janela, a primavera quer entrar. Ela quer fazer com tua vida o que fez com a minha, quer iluminar essas obscuridades que se encontram nos cantinhos do teu coração, baby.
Para que chorar se podemos correr e sorrir e gritar e ousar cada dia um pouco mais? Não há motivos para se estabelecer na letargia e ver a vida passar como se fosse um filme ante nossos olhos. As cenas do cotidiano exigem interação e sem isso, tudo se torna infeliz. Eu estou muito satisfeito, baby, portanto não me importune mais com seus lamentos e seus problemas que são criados por ti mesmo e depois não se resolvem porque tomam proporções inesperadas.
Como diria Alanis: Eu tenho uma mão no bolso e a outra está te acenando com um cigarro.
Deixe-me com meus poucos cigarros e com meus acenos. Fuja de novo. Siga em frente direto pro nada. Afinal, minha influência te levava a fazer coisas que tu não tinha como controlar. Cuidado com a polícia, ela é cruel e implacável. Ela anda a caça de menininhos de fácil persuasão para levá-los a interrogatório por uma tarde inteira.
Será que ainda há remissão para esses pecados?
Creio que não, baby.
Não há mais o que fazer por nós. Nós não existimos mais. Já existimos e fomos, éramos, vivíamos, sofríamos, calávamos. Sentíamos como ninguém. Agora é tarde para sentir qualquer coisa. O lugar não fica vago pra sempre, como acreditou. A vida segue. Quando tudo parece piorar, é porque tudo vai ficar muito bem.
Então, viva e deixe viver, seja e faça feliz. Ama e deixe-se amar, baby.