6.3.06

Carta ao passado

Meu querido,
Com essa carta que escrevo agora, jogo para fora todos os pesares que se encontram guardados no meu peito, na cabeça e no meu saco há vários meses. Julguei ser uma merda essa vida. Ela me arrasta pra lá e pra cá, como se eu fosse um engodo de sofrimento, mas percebi que merda não é. Notei coisas e pessoas que me são muito preciosas e que sempre estiveram ali. Eu estava cego e agora talvez enxergue. Abre essa janela, a primavera quer entrar. Ela quer fazer com tua vida o que fez com a minha, quer iluminar essas obscuridades que se encontram nos cantinhos do teu coração, baby.
Para que chorar se podemos correr e sorrir e gritar e ousar cada dia um pouco mais? Não há motivos para se estabelecer na letargia e ver a vida passar como se fosse um filme ante nossos olhos. As cenas do cotidiano exigem interação e sem isso, tudo se torna infeliz. Eu estou muito satisfeito, baby, portanto não me importune mais com seus lamentos e seus problemas que são criados por ti mesmo e depois não se resolvem porque tomam proporções inesperadas.
Como diria Alanis: Eu tenho uma mão no bolso e a outra está te acenando com um cigarro.
Deixe-me com meus poucos cigarros e com meus acenos. Fuja de novo. Siga em frente direto pro nada. Afinal, minha influência te levava a fazer coisas que tu não tinha como controlar. Cuidado com a polícia, ela é cruel e implacável. Ela anda a caça de menininhos de fácil persuasão para levá-los a interrogatório por uma tarde inteira.
Será que ainda há remissão para esses pecados?
Creio que não, baby.
Não há mais o que fazer por nós. Nós não existimos mais. Já existimos e fomos, éramos, vivíamos, sofríamos, calávamos. Sentíamos como ninguém. Agora é tarde para sentir qualquer coisa. O lugar não fica vago pra sempre, como acreditou. A vida segue. Quando tudo parece piorar, é porque tudo vai ficar muito bem.
Então, viva e deixe viver, seja e faça feliz. Ama e deixe-se amar, baby.

1 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Me lembra Abreu, o Caio Fernando - uma melancolia doce e até terna pra quem ele se dirige...tictaciturno ( lembra?) mas com perspectivas de algo que não se sabe o que.

06 março, 2006 21:26  

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