10.4.06

A arte é a forma de expressar nossos fantasmas e nossas alegrias sem ter que confessar-se perante o público de forma direta, por isso talvez eu tenha escolhido esse caminho para minha vida. Nas minhas palavras, nos personagens que crio e nas músicas que componho liberto todas minhas imprecações, esvazio meu peito de todas as trágicas alegrias cotidianas. Sem arte não há vida.
O segredo do artista é ser outro a cada dia, é ser alguém diferente a cada abrir de cortinas. Ser mais que eu, ser outra pessoa com outra vida é mágico para mim, talvez assustador para a maioria. No palco se morre por ideiais que não são os seus, se vive por pessoas que nem são conhecidos nossos. No palco nos tornamos apenas uma massa corpórea pronta a encarnar uma outra alma e, por incrível que pareça, estamos sempre dispostos a ser moldados de uma outra maneira.
Nas linhas que escrevo incessantemente, posso ser um judeu subjugado pelo nazismo, como posso bem ser o nazista que condena o judeu antes vivido por mim. Posso ser eu, como posso ser alguém desconhecido. Posso ser uma mulher, posso ser alguém sem sexo. Posso ser qualquer coisa, qualquer animal, qualquer espírito...
Por esses e por outros motivos, sou artista e defendo a arte como forma de libertaçao, como único caminho para o afrouxamento das amarras pobres da sociedade. Por isso que me orgulho da minha vida dedicada à arte. Por isso que sou assim, louco. De médico e louco todo mundo tem um pouco. Liberte seu lado louco, vale a pena.

5.4.06

Minhas palavras me denunciam e deflagram uma rebelião em mim. Meus braços por vezes fraquejam e minha alma se sente enternecida com a música da voz querida.
Palavras ferem mais que a lança atirada com força, fere mais que tiro de arma sanguinária. Frases são mais eficientes que um regalo.
Grandes homens perderam sua sensibilidade por desprezarem as palavras bem ditas.
Grandes palavras perderam o seu maior sentido por serem ditas de qualquer forma por qualquer homem rude.
O caminho é tortuoso e a jornada infinita. Pelos campos de uma memória apagada sinto um vento alardeando uma frustrante queda. Merda, se me perder agora talvez nunca mais me encontre.
Sempre chega o momento certo para o tiro de misericórdia. Ou sim, ou não.
É minha a decisão. Sou eu meu algoz, eu largo a corda da guilhotina que decepará minha vida. Sou eu meu carrasco, sou eu quem decide a hora do fim. Mas ainda não decidi. Então, quem está aí esperando ver o sangue escarlate jorrando de mim num rio de tristeza e solidão, pode partir. Não será agora meu fim. Ainda tenho que parir.
Um homem nao pode parir?
Então chamo de outra forma, digo que tenho que gerar, criar, ajudar a nascer. Minha inspiração ainda nao findou, logo, não findou minha vida.
Meu amor ainda existe. Minha paixão por mim é maior que a louca necessidade que alimento pelos outros.
Sou feliz. Esse é meu novo mantra de alucinação. Canto de êxtase.
Sou poeta, prosador, cantador de versos meus, ator de peças de alheias, vivente, humano.
Tenho imperfeições por todos os cantos do meu corpo.
E a maior delas talvez seja no peito.
Minha maior imperfeição está em meu coração que insiste em amar como nos velhos tempos, sendo que os velhos tempos já se foram há muito.

3.4.06

Sinfonia de silêncios

Quando me sento aqui parece que o tempo pára.
Ouço umas vozes que me sopram palavras descabidas aos ouvidos.
Peço a Deus que me ajude na jornada e que ele seja implacável como sempre foi, pois não quero nenhum privilégio, nenhuma boa-ação.
Meu sonho se concretiza e se esvai, num incessante cambiar, numa troca de condição sutil.
Recordo de alguns momentos.
Aqueles perigos, lembra?
Pára de fingir que não pensa nisso.
Lembra, lembra, lembra. Ouço Milton. Ouço Maria.
Quem não lembra não vive, diz a música. Eu lembro, logo, vivo.
Vivo, logo, lembro.
Sou humano de carne e fezes. Sou homem, tenho caráter, embora nao ilibado, mas o tenho. Tenho meus princípios. Alguns estão chegando ao fim, mas ainda assim sempre serão ou terão sido meus.
Uma pausa de mil compassos, diz Marisa. Quero também o mesmo que ela. Penso como ela, às vezes. Penso que às vezes penso como muita gente. Por vezes, nem penso. Grito! Gemido... Surdina...
Quem sabe se eu calasse?
Uma pausa de apenas mil compassos....
...
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...
O silêncio mortifica e torna o ar mais pesado e perigoso.
Se não pode sanar a dúvida, cale-se.
Se pode ajudar com alguma coisa, ajude com o silêncio.
O cheiro de mijo fermentado. O fétido odor da sutileza.
...
...
Mil compassos.