Enquanto embarcavas naquele estado de semidormência e eu, como de praxe, me mantinha acordado por conta do gosto que tenho por te ver adormecer , comecei a analisar teu rosto com os olhos que piscavam involuntariamente, demonstrando a inevitabilidade do sono que se achegava, comecei a afagar teu rosto, busquei entender o motivo de minha afeição, busquei algo físico, palpável que explicasse o subjetivo. Não encontrei, e desisti de tentar encontrar.
“E tu, hein, foi me ganhando na insistência”, comentário de uma tarde de domingo, e minha resposta interna e instantânea dizia: “Mas que insistência? Como assim? Ganhando?” Nunca tive nenhuma intenção, não premeditei nada, só fiz aquilo que combinamos, nunca supus que algo aconteceria. Talvez eu seja um adepto de Nietsche que pregava que não devemos gerar expectativas para não cair no desalento após as frustrações, ou talvez eu seja cria de Heidegger, penso ser-no-mundo, morte, angústia ou decisão. Penso em ser-a-cada-momento ou ser-de-cada-vez (respectividade).
Tento ponderar detalhes que talvez nunca tivessem vindo à tona se não estivesses ali, ao meu lado, com a perna por cima das minhas, tendo espasmos de pré-sono, aqueles pequenos estremecimentos que chegam quando o corpo tenta se livrar dos braços de Morpheus.
Talvez eu seja demasiado afoito e expresse meus sentimentos e impressões de forma abrupta demais – ou clara demais – e isso, todavia, não é algo que eu pretenda mudar em breve e talvez meus textos sejam puramente confessionais e sem nenhum valor para outrem, nem para os que são mencionados nas minhas anotações poeticamente proseadas, porém, como já disse e reafirmo, essa é a forma que talvez melhor me expresse e as opiniões que aqui indico provavelmente nunca sejam de fato verbalizadas.
As implicações dessa aproximação - no mínimo inusitada - que houve entre nós, não podem ser mensuradas agora, ainda estamos sob o efeito “idiotizante” da descoberta do outro e teríamos a visão afetada por isso, por maior maturidade e experiência que tivéssemos. Como sou irrequieto, tenho uma necessidade de encaminhar minhas decisões para o final, tenho uma vontade de resolver tudo logo, não consigo conceber nenhum tipo moderno de relacionamento, já concebi e não consigo construir uma nova visão de forma nem de conteúdo sobre meu “eu”, esse título de diversos e infindáveis textos e teses de todos os fins e meios, meu ego não me permite não querer dividir contigo todas as coisas, todos os fatos, todos os pensamentos.
Talvez toda essa minha transparência me transforme em um vidro invisível, estou ali mas não posso ser visto.
Ou talvez......talvez......talvez.... Esses poréns que aparecem ao longo dos dias, não necessitam de respostas imediatas. Estou disposto a esperar, a pagar para ver aonde vamos, onde pararemos. Não quero resoluções de agora pra agora, estou querendo ser eu, contigo. Estou querendo estar para ti, como tu está para mim, presente, dádiva e alegria em todos os momentos.